Faz algum tempo que estou à procura de uma coleção de livros antiga chamada Ponto por Ponto. Um verdadeiro tesouro com receitas e técnicas de crochê, tricô e outras manualidades. Meu pequeno sonho se tornou realidade quando encontrei alguém querendo se desfazer da coleção na internet.
Depois de me certificar de que o conteúdo estava completo, comprei e aguardei contando os dias. Mas foi durante a espera que comecei a perceber que talvez meu sonho não se concretizasse como eu imaginava. Apesar do envio rápido e da boa vontade do vendedor, eu não havia me atentado para uma questão importante: estava adquirindo uma obra de mais de 30 anos.
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| Foto de Paolo Chiabrando na Unsplash |
O papel envelhece com o tempo, mesmo com cuidados. Mas isso não ia azedar meu sonho. Pesquisei sobre conservação, me informei sobre os cuidados necessários e aguardei a entrega rápida para o entregador, uma eternidade para mim. Quando chegou, eu parecia criança esperando a primeira bicicleta. Veio a ansiedade. Não sabia se abria ou se ficava ali, feito uma besta, só admirando o embrulho.
Aí deu aquele estalo: "Epa! Vamos pegar o equipamento." Máscara, pincel, folhas de papel, seda, papelão, pano seco, coragem e o coração batendo no ouvido. Abri. Tirei uma foto e enviei para uma amiga que entende de restauração, pensando: "Ela vai dizer: continua o serviço, mulher." Mas lembro de cada palavra:
"Essas manchas aí… é fungo." Ela foi falando, explicando… e as palavras foram sumindo. Só ficou uma: É. FUNGO. Veio aquele misto de negação: "Não… não pode ser." Tirei dezenas de fotos, torcendo para que uma, só uma, pelo menos uma, fizesse o bicho sumir. Queria até ver uma traça passeando. Mas fungo? Então veio a facada de misericórdia: "Você está sentindo algum cheiro forte?" Eu respondia pra mim mesma: "Tá louca, não sinto nada." E meu nariz: "Tá sim, sua besta." Segundos de indecisão depois, respondi: "Vou devolver."
E aí, acho que meus olhos finalmente olharam de verdade os livros. A coleção estava incompleta. Faltava um livro e eu certamente deixaria isso pra lá (mesmo querendo muito). Trocaria sem pensar duas vezes a ausência dele pelas manchinhas pretas que corroeram meus sonhos. Ódio eterno aos fungos.
Compartilhar esse horror literário não é pra destruir sonhos, é para ajudar a torná-los mais conscientes. O envelhecimento dos livros é real. Ele pode ser lento, quando há cuidado: longe da luz e do calor do sol, lugar ventilado, sem umidade, bem armazenados. Ou pode ser acelerado, quando há: cantos escuros, insetos, infiltrações, mofo, poeira e calor.
Cuidar de livros antigos é um desafio constante. Exige tempo, responsabilidade e muito amor. Eu ainda posso jurar que, em algum momento dessa aventura, ouvi o cachorro do Dick Vigarista rindo: "hihihihihi" com aquele deboche irritante. E ouvi também a frieza prática: "Amanhã a gente devolve. Arruma outra. Se der ruim, devolve de novo." Ô frieza, gente. Mas no fim, foi aprendizado. Outras coleções virão. Novos sonhos. Novamente o coração palpitando. Mas uma coisa é certa: nada de fungos.


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