Mãos de ouro : a coleção que encantou gerações

 Era a década de 60, minha mãe se dedicava ao lar e à nossa educação, mas seu espírito criativo estava presente por toda parte. Às vezes, devido à inocência natural das crianças, eu achava que ela possuía algum tipo de poder mágico. Ela pegava tecidos, linha e agulha e logo aparecia uma boneca de trapos, linda como as princesas dos contos de fada, pelo menos meus olhos viam assim.


E ela não parava: caixas de sapato eram armários para bonecas, camas e até fogões que faziam as melhores comidas imaginárias do mundo. Mas ela não se contentava em ser a fada madrinha das minhas brincadeiras e espalhava seu pó de pirlimpimpim por toda a casa. Vasos de barro ganhavam vida em suas pinturas, sacos de farinha descartados eram toalhas rendadas feitas com os mais belos nós, numa técnica que ela não saberia sequer ler a receita, mas fada de verdade não precisa saber ler, precisa? As mães são assim, cada uma tem o seu dom.

Foi nesse contexto que a editora Abril Cultural teve uma visão inteligente, acreditando que uma revista que oferecesse vários tipos de trabalhos manuais certamente seria bem recebida pelas donas de casa e, para tornar cada exemplar um objeto de desejo, dividiu em fascículos semanais que, após algumas semanas, podiam ser encadernados com uma linda capa azul com letras douradas, transformando-se num tesouro em nossas estantes. Era a era dos fascículos e ir toda semana nas bancas de jornais virou rotina.

Naquela época as pessoas gostavam de ter enciclopédias nas estantes, mas não eram muito acessíveis, então chegaram os fascículos e tornaram tudo possível, desde que tivéssemos paciência e um jornaleiro perto de casa. Adaptada de uma obra italiana, Mãos de Ouro fez história no nosso artesanato.

Quando comecei a pesquisar sobre o efeito dessas coleções na vida das famílias, logo pensei na profissionalização dessas mulheres, no aprendizado se tornando uma fonte de renda e, por consequência, independência financeira. Mas olhar para o passado com a visão de hoje é um erro.

A educação feminina da época tinha como objetivo formar boas esposas e mães, e não empreendedoras. Claro que tinham as bordadeiras, costureiras e crocheteiras muito qualificadas, conheci várias em minha infância, mas não eram vistas como profissões como hoje em dia. A própria apresentação da coleção dizia que era uma obra necessária para ajudar a mulher a elaborar trabalhos que lhe proporcionariam a satisfação íntima de dizer "Fui eu que fiz"... já nos diz um pouco do pensamento da época.


“Nota: Como não possuo fotos originais da coleção daquela época, utilizei esta imagem gerada por IA para dar vida à história e ajudar você, leitor, a visualizar esse tesouro azul e dourado comigo.”

Para quem quiser se aprofundar no tema:

  • Mãos de Ouro - Enciclopédia de Trabalhos Manuais Femininos (Introdução) - Citação sobre a "mulher moderna" e o artesanato

  • História da Editora Abril Cultural e suas publicações em fascículos (1968-1982)

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